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Uma menina numa equipa de rapazes: como o treinador deve agir

Quando há uma menina numa equipa de rapazes, a pergunta que mais importa não é se ela consegue jogar, é se se sente parte da equipa. Antes da puberdade não há diferenças de desempenho que justifiquem separar raparigas e rapazes, e o regulamento da FPF permite equipas mistas até ao escalão de juvenis. O que faz uma rapariga ficar ou desistir é sobretudo o ambiente: sentir-se sozinha, comentários, receber menos a bola, falta de modelos. Este artigo explica o que diz a evidência e o que o treinador e o clube podem fazer.

Jogadora de futebol com a bola num relvado
Foto: JOHANNA NOEMÍ GALLIOTTI Buenos aires 2019 titi nicola racing river futbol femenino 04 — TitiNicola · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

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Neste artigo
  1. O que diz a evidência sobre raparigas e rapazes antes da puberdade
  2. Porque é que as raparigas desistem: o ambiente pesa mais do que o jogo
  3. O que fazer na prática: tratá-la como jogadora
  4. Balneário, privacidade e logística em torneios
  5. Ligar a outras raparigas e envolver colegas e pais
  6. Erros comuns a evitar

O que diz a evidência sobre raparigas e rapazes antes da puberdade

Uma revisão publicada na Endocrine Reviews em 2018 (Handelsman e colegas) resume o consenso científico: antes da puberdade não há diferença entre sexos na testosterona circulante nem no desempenho atlético. A diferença clara aparece a partir da puberdade, quando a testosterona aumenta muito nos rapazes. Um estudo norueguês com jovens atletas de atletismo (Tønnessen e colegas, PLoS ONE, 2015) mostrou que raparigas e rapazes têm resultados quase iguais na corrida e nos saltos até aos 12 anos, e que a diferença passa de menos de 5% para 10 a 18% entre os 11 e os 18 anos.

Isto não significa que todas as crianças sejam iguais aos 9 anos. Há diferenças grandes entre crianças da mesma idade, de ambos os sexos, por maturação, experiência e horas de prática. Muitas raparigas começam o futebol mais tarde e jogaram menos na rua ou no recreio. Essa diferença de experiência é real, mas não é biológica, e reduz-se com treino.

A partir da puberdade, as diferenças físicas médias aumentam. É por isso que as federações definem limites de idade para equipas mistas. Em Portugal, o regulamento de inscrição de jogadores da FPF (artigo 8.º, n.º 5) permite que as equipas de petizes, traquinas, benjamins, infantis, iniciados e juvenis sejam compostas por jogadores femininos e masculinos. Convém confirmar com a associação as regras de cada prova e de cada época.

Porque é que as raparigas desistem: o ambiente pesa mais do que o jogo

Um estudo da Universidade de Brunel sobre o alargamento do futebol misto em Inglaterra (Hills e colegas, International Review for the Sociology of Sport, 2021) ouviu jogadoras, pais, treinadores e colegas em equipas mistas de futebol 11. As raparigas disseram que jogar com rapazes melhorava o seu futebol e valorizavam as amizades na equipa. Mas uma rapariga sozinha numa equipa às vezes sentia-se posta de parte, os adversários faziam comentários depreciativos e algumas sentiam que tinham de se mostrar «duras» para serem aceites.

Um estudo da Universidade de Toronto (deJonge e colegas, Qualitative Research in Sport, Exercise and Health, 2023), com mulheres que jogaram em equipas masculinas na adolescência, descreve a necessidade constante de contrariar a ideia de que as raparigas são menos capazes no desporto.

Fora do futebol misto, a investigação da associação britânica Women in Sport (2022, inquérito a 4000 jovens) concluiu que 43% das raparigas que se consideravam desportivas na infância se afastam do desporto na adolescência, contra 24% dos rapazes. Entre as razões mais citadas estavam o receio de ser julgada (68%) e a falta de confiança (61%). São dados do Reino Unido, mas ajudam a perceber onde o treinador pode atuar.

  • Sentir-se a única e sem ninguém com quem partilhar a experiência.
  • Comentários de colegas, adversários ou adultos na bancada.
  • Receber menos a bola nos jogos, mesmo quando está livre.
  • Falta de modelos: treinadoras, jogadoras mais velhas, equipas femininas visíveis no clube.
  • Balneários e logística pensados só para rapazes.

O que fazer na prática: tratá-la como jogadora

A regra principal é simples: ela é uma jogadora da equipa, com os mesmos direitos e deveres dos colegas. Nem mais protegida, nem mais exposta.

  • Mesmos critérios de minutos, posições e exigência. Se a equipa roda posições, ela roda. Se o treinador corrige, corrige-a como aos outros.
  • Linguagem de equipa. Dizer «equipa», «pessoal», «jogadores», não «rapazes» ou «meninos». Parece um pormenor, mas uma criança que ouve «vamos, rapazes» todos os treinos percebe que não está incluída.
  • Regras claras contra comentários e gozo. Definir no início da época que comentários sobre ser rapariga, sobre o corpo ou sobre quem pode jogar não são aceites, e aplicar a regra sempre, como aplicaria a qualquer outra forma de gozo.
  • Atenção ao jogo. Observar se ela recebe a bola quando está livre. Se não recebe, trabalhar com a equipa sem a apontar: exercícios em que todos têm de tocar antes de finalizar, contagem de passes por jogador, perguntas sobre quem estava livre.
  • Falar com ela e com a família, em privado e com naturalidade, sobre como se sente e se há alguma coisa a mudar. Não fazer disso uma conversa diferente da que teria com qualquer jogador novo.

Balneário, privacidade e logística em torneios

A logística é uma das razões mais práticas de desconforto e uma das mais fáceis de resolver. O clube deve planear antes de ela precisar de pedir.

  • Balneário próprio ou, se não houver, um horário em que o balneário fica reservado para ela antes ou depois dos colegas. Com os mais novos, muitas famílias preferem que a criança venha já equipada.
  • Casas de banho identificadas e próximas do campo.
  • Em torneios, pedir à organização, quando faz a inscrição, um espaço para trocar de roupa e informar o número de jogadoras da equipa. Quem organiza deve prever esta necessidade sem que tenha de ser pedida.
  • Viagens e estadias: regras de quartos definidas com as famílias antes e um adulto de referência, de preferência uma mulher da equipa técnica ou da organização.
  • Equipamento: tamanhos adequados e, se ela preferir, calções escuros.

Ligar a outras raparigas e envolver colegas e pais

O estudo de Brunel mostra que ser a única rapariga é das situações mais difíceis. Por isso, o clube deve tentar que ela não fique sozinha durante muito tempo.

  1. Agrupar raparigas: se houver duas ou três no mesmo escalão, colocá-las na mesma equipa mista.
  2. Treinos femininos conjuntos uma vez por semana ou por mês, com raparigas de escalões próximos ou de clubes vizinhos.
  3. Encontros e torneios femininos da associação, mesmo mantendo-a na equipa mista.
  4. Modelos próximos: convidar jogadoras de equipas seniores femininas para treinos, envolver treinadoras.
  5. Caminho visível: explicar à família que opções existem quando ela chegar a idades em que as competições se separam.

Os colegas são decisivos. Na maioria dos casos aceitam com naturalidade uma colega que joga bem e é simpática, sobretudo se o treinador não fizer disso um assunto. Os pais da equipa também contam: na reunião de início de época, a regra sobre comentários aplica-se à bancada. Comentários como «deixaste-te passar por uma menina» ou «cuidado, não a magoes» devem ser travados com calma pelo treinador ou pelo coordenador.

Erros comuns a evitar

  • Colocá-la sempre à defesa ou na baliza. Deve passar pelas mesmas posições que os colegas, de acordo com as suas qualidades, não com o sexo.
  • Facilitar. Pedir aos colegas que não a marquem com força ou dar-lhe mais minutos «por ser menina» tira-lhe a possibilidade de evoluir e de ser respeitada pelo que faz.
  • Tratá-la como mascote. Pô-la à frente em todas as fotografias ou celebrar cada toque como uma surpresa transmite que não se espera nada dela.
  • Expô-la à imprensa ou às redes sociais. Publicações do tipo «a única menina da equipa» colocam-na no centro por ser rapariga, não por ser jogadora. Qualquer publicação de imagens de menores precisa da autorização da família.
  • Ignorar comentários. Não intervir é aceitar. Um comentário travado cedo evita muitos depois.
  • Falar com ela à frente de todos sobre ser rapariga. As conversas sobre como se sente fazem-se em privado.

Perguntas frequentes

Uma menina pode jogar numa equipa de rapazes no futebol?

Sim. Em Portugal, o regulamento de inscrição de jogadores da FPF permite equipas mistas nos escalões de petizes, traquinas, benjamins, infantis, iniciados e juvenis. Antes da puberdade não há diferenças de desempenho entre sexos que justifiquem separar. Confirma as regras da prova com a associação.

Até que idade as raparigas podem jogar com rapazes?

Segundo o regulamento da FPF, até ao escalão de juvenis (sub-17). As associações podem ter regras próprias em algumas provas. A partir da puberdade, as diferenças físicas médias aumentam, por isso as competições de juniores e seniores são separadas.

Como evitar que uma rapariga desista numa equipa de rapazes?

Tratá-la como qualquer jogador da equipa, travar comentários desde o início, garantir que recebe a bola e tem minutos pelos mesmos critérios, resolver a logística do balneário e ligá-la a outras raparigas através de treinos ou encontros femininos. Sentir-se sozinha é uma das principais razões de desconforto.

O treinador deve falar com a equipa sobre ter uma menina no grupo?

Não é preciso fazer uma conversa especial. Basta definir regras de respeito para todos, usar linguagem de equipa e intervir quando há comentários. Uma conversa centrada nela tende a destacá-la, que é o contrário do que se pretende.

Fontes

  1. Handelsman, Hirschberg e Bermon (2018) — Circulating Testosterone as the Hormonal Basis of Sex Differences in Athletic Performance. Endocrine Reviews
  2. Tønnessen et al. (2015) — Performance Development in Adolescent Track and Field Athletes According to Age, Sex and Sport Discipline. PLoS ONE
  3. Hills, Maitland, Croston e Horne (2021) — Undoing gender/redoing policy in mixed football. International Review for the Sociology of Sport
  4. Universidade de Toronto (2023) — Study explores the experiences of girls who play on mixed sports teams
  5. Women in Sport (2022) — More than 1 million teenage girls fall out of love with sport (Reframing Sport for Teenage Girls)
  6. FPF — Regulamento do Estatuto, da Categoria, da Inscrição e Transferência de Jogadores (art. 8.º)

Verificado em outubro de 2026. Regras e escalões variam por associação e por época; confirma no regulamento local.