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Tática

Jogo posicional: corredores, superioridades e terceiro homem

Jogo posicional não é trocar passes por trocar: é ocupar o campo de forma que cada posição crie linhas de passe e que a bola chegue, o mais cedo possível, ao jogador livre atrás de uma linha adversária. Para isso o time precisa de regras de ocupação (corredores, alturas, escalonamento), de saber gerar superioridades e de mecanismos como o terceiro homem e o atrair para libertar. A seguir, os princípios, as respostas do adversário e como treinar.

Diagrama tático: time em estrutura 3-2-5 ocupando os cinco corredores contra um bloco 4-4-2, com passe para o meia entre linhas

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Neste artigo
  1. O problema que o jogo posicional resolve
  2. Ocupação racional: corredores, alturas e escalonamento
  3. Superioridade numérica, posicional e qualitativa
  4. Terceiro homem e atrair para libertar
  5. Contraestratégias do adversário e como responder
  6. Como treinar o jogo posicional
  7. Erros comuns e o que observar no vídeo

O problema que o jogo posicional resolve

Um bloco defensivo bem organizado fecha o corredor central e obriga você a circular por fora, onde a linha lateral ajuda quem defende. Sem regras de ocupação, o time com a bola tende a se aglomerar perto dela: todos querem receber, as linhas de passe se sobrepõem e o adversário defende muitos jogadores com poucos. O jogo posicional organiza a posse para o contrário: o time se distribui para esticar o bloco, cada jogador fixa pelo menos um adversário e a bola procura o espaço que esse estiramento abriu.

A ideia ficou associada ao trabalho de Guardiola, mas os princípios são anteriores e independentes de sistema. Eles convivem com a tradição brasileira de jogo apoiado e de aproximação: o jogador continua tendo liberdade para combinar, só que a partir de uma estrutura que garante amplitude, profundidade e equilíbrio quando a bola se perde.

Ocupação racional: corredores, alturas e escalonamento

Divida o campo em cinco corredores verticais: dois externos (do lado de fora da grande área), dois internos, entre a linha da grande área e a da pequena área, e o central. Nos corredores internos, os famosos meios-espaços, o jogador recebe com acesso ao gol e ao lado, e fica entre dois defensores, o lateral e o zagueiro, que não sabem quem sai.

  • Nunca mais de dois jogadores no mesmo corredor, e nunca na mesma altura. Dois no mesmo corredor precisam estar em alturas diferentes.
  • Nunca três jogadores na mesma linha horizontal. Linha reta é passe horizontal e facilmente interceptado; diagonais criam ângulo e cobertura.
  • Quatro alturas de referência: primeira linha de construção, linha do volante (atrás da primeira linha de pressão), linha entrelinhas (entre o meio e a defesa adversária) e última linha (fixando os zagueiros).
  • Amplitude pelos externos: um jogador por lado, de chuteira na linha lateral, quando a bola está no lado oposto. Ele fixa o lateral adversário e prepara a virada.
  • Profundidade: pelo menos um jogador ameaçando a última linha para impedir que a defesa adversária suba e encurte o campo.

Em posse, isso costuma produzir estruturas 3-2-5 ou 2-3-5, com as pontas abertas, dois meias nos corredores internos e o centroavante entre os zagueiros. O sistema de partida (4-3-3, 4-2-3-1, 3-4-3) importa menos que essa ocupação final.

Cinco corredores e ocupação 3-2-5 contra bloco 4-4-2 4 3 2 5 6 11 7 8 10 9 Externo Interno Central Interno Externo Time A Adversário Passe
Esquema 1. Ocupação 3-2-5 contra um 4-4-2: três na primeira linha, dois volantes escalonados atrás dos atacantes, pontas abertas nos corredores externos e meias nos internos. Cada um dos cinco jogadores da frente prende um defensor; o passe do volante 6 encontra o meia 10 entre linhas. Abrir na prancheta tática ↗

Superioridade numérica, posicional e qualitativa

TipoO que éExemplo de campo
NuméricaMais jogadores que o adversário numa zona3x2 na primeira linha com o goleiro; 2x1 no corredor lateral com lateral e ponta
PosicionalUm jogador colocado de forma a ganhar tempo, mesmo em igualdadeMeia entre linhas no corredor interno, atrás do meio-campo adversário
QualitativaUm duelo em que o seu jogador é superiorPonta driblador isolado contra um lateral mais lento

A superioridade numérica é a mais fácil de ver e a mais fácil de anular: basta o adversário igualar números. A posicional é a mais valiosa: o meia que recebe nas costas do meio-campo adversário, de lado, com o quadril aberto, ganha um ou dois segundos porque nenhum dos quatro defensores próximos tem referência clara. Se o volante adversário recua, abre o espaço à frente da defesa; se o zagueiro sai, abre a profundidade; se o lateral fecha, libera a ponta. A qualitativa depende do elenco e é usada isolando o seu melhor jogador num 1x1, assunto que desenvolvo em sobrecarga e inversão de jogo.

Superioridade posicional: receber no corredor interno, entre linhas Entrelinhas 5 6 2 8 10 7 11 9 Time A Adversário Passe Infiltração / corrida
Esquema 2. Superioridade posicional: o meia 10 recebe no corredor interno, atrás da linha de quatro do meio e à frente da defesa. A ponta 7 ataca a profundidade e prende o lateral; o zagueiro e o lateral adversários ficam em dúvida sobre quem sai. Abrir na prancheta tática ↗

A orientação corporal é parte da posição. Quem recebe entre linhas se posiciona de lado, na diagonal em relação ao passador, enxergando a bola e o gol. Receber de frente para a bola, de costas para o gol, entrega ao zagueiro a referência que ele precisava para saltar.

Terceiro homem e atrair para libertar

Quando o jogador entre linhas está marcado, a bola chega a ele de forma indireta. O terceiro homem usa um jogador marcado como parede: o passe vai para ele, que devolve de primeira para um companheiro que chega de frente, já na zona que se queria atingir. O defensor acompanhou a primeira referência e não consegue reagir à segunda. O detalhe técnico que decide é o passe de devolução de primeira, rasteiro e no pé de quem chega. Há mais variações em tabela e terceiro homem.

Terceiro homem: o centroavante desce, devolve e o meia chega de frente 5 6 9 8 10 11 7 Time A Adversário Passe Infiltração / corrida Pressão
Esquema 3. O volante 5 joga no centroavante 9, que desce entre linhas e é acompanhado pelo zagueiro. O 9 devolve de primeira para o meia 8, que chega de frente no corredor interno e lança a ponta 11 nas costas do lateral. Abrir na prancheta tática ↗

Atrair para libertar é o outro mecanismo. O jogador com a bola conduz em direção a um adversário até que ele saia da posição; o espaço que ele deixa é ocupado por quem estava fixado. Conduzir para o espaço vazio sem atrair ninguém só gasta tempo. A regra prática: conduzir até um adversário dar o primeiro passo na sua direção, e soltar.

Atrair para libertar: o zagueiro conduz até o meia adversário sair 4 3 5 2 6 8 10 7 11 9 Time A Adversário Passe Condução Pressão
Esquema 4. O zagueiro 3 conduz pelo corredor interno com espaço à frente. Quando o meia adversário sai para pará-lo, o meia 10, que estava fixando esse jogador, fica livre entre linhas e recebe. Abrir na prancheta tática ↗

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Contraestratégias do adversário e como responder

  • Bloco baixo e compacto (5-4-1, 4-5-1) que fecha as entrelinhas. Circule com paciência para mover o bloco, ataque por fora com sobreposições, use a segunda linha (volantes e zagueiros chutando de fora ou entrando na área) e prepare a reação à perda, porque a transição contra é a principal arma de quem se fecha.
  • Marcação individual nos meias. A ocupação passa a servir para arrastar marcadores: o meia sai do corredor interno, o marcador vai junto, e a ponta ou o centroavante ocupam o espaço. Sem rotações, a estrutura fica estática e fácil de encaixar.
  • Pressão alta orientada para fora. Combine o jogo posicional com uma saída alternativa, longa e planejada, para o centroavante ou para a ponta oposta.
  • Volante adversário colado no seu pivô. Desça um meia para formar o duplo pivô, ou use o centroavante recuado (o falso 9) para criar o 4x3 no meio.

A resposta comum a todas é a mesma ideia: a posição é ponto de partida, não ponto fixo. Os jogadores trocam de posição desde que a ocupação final dos corredores e das alturas se mantenha.

Como treinar o jogo posicional

Exercício 1: rondo posicional 4x4+3

Espaço: 32 x 28 metros. Jogadores: 4x4 dentro e três coringas, um em cada linha de fundo e um no centro. Regras: o time em posse joga com os coringas (7x4); ponto quando a bola vai de um coringa de fundo ao outro passando por um jogador de dentro. Coringa central joga de primeira. Carga: 6 séries de 3 minutos, 1 minuto e meio de pausa. Progressão: dois toques para todos; a equipe que recupera precisa dar três passes antes de pontuar. Foco: perfil corporal aberto, passe para o pé mais distante do marcador, devolução de primeira para o terceiro homem.

Exercício 2: jogo de posição 7 contra 6 por corredores

Espaço: 50 metros de largura por 40 de profundidade, dividido em cinco corredores com cones. Jogadores: sete atacando (três de construção e quatro à frente) contra seis, que defendem duas minibalizas. Regras: no máximo dois atacantes por corredor; o ponto só vale se a bola passar por um jogador posicionado entre linhas; os defensores que recuperam finalizam nos dois minigols do outro lado. Carga: 4 blocos de 6 minutos, 2 de pausa. Progressão: liberar a regra dos corredores quando a ocupação ficar automática e observar se ela se mantém.

Exercício: jogo de posição 7 contra 6 por corredores 50 x 40 m 4 5 3 11 8 10 7 Time A Adversário Passe
Esquema 5. Organização do exercício 2: corredores marcados com cones, sete contra seis. O volante 5 encontra o 10 entre linhas, que inverte para o 8 no corredor interno oposto. Abrir na prancheta tática ↗

Exercício 3: 11x11 com zonas de bônus

Jogo em campo inteiro, 3 tempos de 10 minutos com 3 de pausa. Marque os corredores internos do último terço. O gol que nasce de um passe recebido dentro dessas zonas vale dois. O time que defende joga com a estrutura do próximo adversário.

Erros comuns e o que observar no vídeo

  • Todos querendo a bola. Pontas que fecham para dentro sem que ninguém ocupe o corredor externo. Correção: regra de corredores no treino e referência visual (linha lateral).
  • Jogadores em linha. Volantes lado a lado, meias na mesma altura. Correção: escalonamento, um mais alto, outro mais baixo.
  • Receber de costas no corredor interno. Correção: posicionamento de lado e escaneamento antes do passe.
  • Circular sem intenção. Passes horizontais sem atrair ninguém. Correção: contar quantos adversários cada passe moveu; ponto no treino só para passes que superam uma linha.
  • Esquecer a reação à perda. Ocupar muito a frente sem equilíbrio atrás. Correção: definir quem fica na estrutura de equilíbrio defensivo com bola.

No vídeo, use a câmera tática aberta e congele a imagem a cada fase de posse estabelecida. Conte jogadores por corredor e por altura, verifique se existe alguém entre linhas e quantas vezes a bola chegou a ele. Uma medida simples para comparar jogos: número de recepções entre linhas por tempo e quantas delas foram de frente para o gol.

Perguntas frequentes

O que é jogo posicional no futebol?

É uma forma de organizar a posse em que os jogadores ocupam o campo segundo regras (corredores, alturas, escalonamento) para criar linhas de passe e levar a bola ao jogador livre atrás das linhas adversárias. Não depende de um sistema específico.

Qual a diferença entre jogo posicional e jogo apoiado?

No jogo apoiado, ou relacional, os jogadores se aproximam da bola e combinam em espaço curto. No posicional, a distribuição no campo vem antes e a bola procura o espaço criado pela ocupação. Muitos times usam os dois, conforme a zona do campo.

O que é meio-espaço no futebol?

É o corredor interno, entre a linha da grande área e a da pequena área. Quem recebe ali fica entre o lateral e o zagueiro adversários e tem acesso ao gol e à lateral, o que o torna o espaço preferido para meias e pontas que jogam por dentro.

Jogo posicional funciona na base?

Sim, se for ensinado por princípios e não por posições fixas. Do sub-13 ao sub-15, trabalhe amplitude, escalonamento e receber de lado; a partir do sub-17, as estruturas de posse e os mecanismos de terceiro homem e atrair para libertar.