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Tática

História da tática no futebol: do 2-3-5 ao jogo posicional

A história da tática no futebol é a história de um jogo que foi resolvendo problemas: como defender com menos jogadores à frente, como ocupar melhor o espaço, como recuperar a bola mais cedo. Do 2-3-5 dos primeiros campeonatos ao jogo posicional atual, cada sistema nasceu como resposta ao anterior e a mudanças nas leis do jogo. Para um treinador de formação, conhecer esta evolução ajuda a perceber porque ensinamos o que ensinamos, e o que cada época ainda tem para ensinar.

Fotografia antiga de uma equipa de futebol posando em duas filas
Foto: Unione Sportiva Cremonese (1920s) · pdm · Wikimedia Commons

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Neste artigo
  1. O 2-3-5: a pirâmide dos primeiros tempos
  2. O WM: a resposta à nova lei do fora de jogo
  3. O 4-2-4: Hungria, Brasil e o Benfica de Guttmann
  4. Catenaccio e líbero: defender primeiro
  5. Futebol total e pressing: o espaço passa a ser o adversário
  6. Jogo posicional e pressão moderna
  7. História da tática no futebol: o que um treinador de formação pode aprender

O 2-3-5: a pirâmide dos primeiros tempos

No fim do século XIX, o futebol era um jogo de ataque. Depois de uma fase em que quase todos corriam atrás da bola, as equipas britânicas estabilizaram um desenho com dois defesas, três médios e cinco avançados, a chamada "pirâmide". Foi este o sistema que chegou a Portugal com os primeiros clubes, no início do século XX.

A lei do fora de jogo da época exigia três adversários entre o atacante e a linha de baliza, o que facilitava a vida aos dois defesas: bastava um deles subir para deixar os avançados adversários em fora de jogo. O médio centro era a figura principal, a defender e a lançar o ataque.

Sistema 2-3-5 (pirâmide) 1 3 2 6 5 4 11 10 9 8 7 Equipa A Passe Desmarcação / corrida
Esquema 1. 2-3-5: dois defesas, três médios e cinco avançados. O médio centro (5) liga a equipa; os avançados ocupam toda a largura do campo. Abrir no quadro tático ↗

O WM: a resposta à nova lei do fora de jogo

Em 1925, a lei do fora de jogo passou a exigir apenas dois adversários em vez de três. Os avançados ganharam espaço e os golos dispararam. Herbert Chapman, no Arsenal, respondeu recuando o médio centro para o meio dos dois defesas, criando um terceiro central. Os dois médios interiores recuaram também. O desenho resultante, 3-2-2-3, ficou conhecido como WM pela forma das duas linhas de trás e da frente.

O WM introduziu a ideia de marcação mais definida: cada defesa tinha um adversário de referência. Dominou o futebol europeu até aos anos 50, incluindo em Portugal, e ainda hoje se reconhece nos sistemas com três centrais.

Sistema WM (3-2-2-3) Quadrado central 1 3 5 2 6 4 10 8 11 9 7 Equipa A
Esquema 2. WM (3-2-2-3): o médio centro recua para defesa central (5) e os interiores (8 e 10) ligam médios e avançados. O quadrado central formado por 4, 6, 8 e 10 é o coração do sistema. Abrir no quadro tático ↗

O 4-2-4: Hungria, Brasil e o Benfica de Guttmann

Nos anos 50, a Hungria mostrou que o avançado centro podia recuar e baralhar as marcações do WM. O Brasil campeão do mundo em 1958 organizou estas ideias num 4-2-4: quatro defesas em linha, dois médios e quatro avançados. Em 1962, com um dos extremos a recuar, o desenho aproximou-se do 4-3-3.

Em Portugal, o 4-2-4 está associado ao Benfica de Béla Guttmann, que venceu a Taça dos Campeões Europeus em 1961 e 1962. A seleção de Otto Glória, terceira classificada no Mundial de 1966 com Eusébio, também bebia destas ideias. A defesa a quatro tornou-se a base da maioria das equipas portuguesas desde então.

Sistema 4-2-4 1 3 4 5 2 6 8 11 9 10 7 Equipa A Passe Desmarcação / corrida
Esquema 3. 4-2-4: dois médios (6 e 8) têm de cobrir todo o meio-campo. Com bola, a equipa ataca com quatro jogadores na frente; sem bola, o sistema exige muito aos médios. Abrir no quadro tático ↗

Catenaccio e líbero: defender primeiro

Em Itália, a resposta a equipas mais fortes foi reforçar a defesa. O catenaccio, aperfeiçoado por Nereo Rocco e por Helenio Herrera no Inter dos anos 60, juntava marcação individual apertada a um líbero: um defesa sem adversário direto, atrás dos marcadores, para corrigir qualquer falha. O ataque vivia de recuperações e de contra-ataques rápidos, muitas vezes lançados por um lateral que subia pelo corredor.

Catenaccio com líbero 1 5 3 4 2 6 10 8 11 9 7 Equipa A Passe Desmarcação / corrida
Esquema 4. Catenaccio com líbero (5) atrás de três marcadores. Depois de recuperar, o médio (10) lança o contra-ataque em profundidade e o lateral esquerdo (3) sobe pelo corredor. Abrir no quadro tático ↗

O líbero ficou no futebol durante décadas, também em Portugal, e evoluiu para um defesa que saía a jogar com bola, ao estilo de Beckenbauer. Hoje quase desapareceu, mas a ideia de ter sempre um jogador em cobertura continua a ser ensinada a qualquer defesa central.

Futebol total e pressing: o espaço passa a ser o adversário

No início dos anos 70, o Ajax de Rinus Michels e Johan Cruyff, campeão europeu em 1971, 1972 e 1973, e a seleção holandesa do Mundial de 1974 apresentaram o futebol total: jogadores que trocavam de posição, uma defesa que subia para encurtar o campo e uma pressão coletiva sobre a bola. A posição deixou de ser um lugar fixo e passou a ser uma função que qualquer jogador podia ocupar.

No fim dos anos 80, Arrigo Sacchi levou estas ideias a um 4-4-2 em linha muito compacto no Milan, campeão europeu em 1989 e 1990. A defesa à zona, com as linhas próximas e a pressão coordenada, tornou-se uma referência. Em Portugal, o FC Porto foi campeão europeu em 1987 com Artur Jorge e, em 2004, com José Mourinho, num 4-4-2 em losango com grande organização coletiva.

4-4-2 compacto em pressing Bloco compacto 1 3 4 5 2 11 6 8 7 9 10 Equipa A Pressão
Esquema 5. 4-4-2 em pressing: as três linhas ficam próximas, a defesa sobe e os avançados (9 e 10) orientam a pressão. Quanto mais curto o bloco, menos espaço tem o adversário entre linhas. Abrir no quadro tático ↗

Há ainda um contributo português que não é um sistema, mas uma forma de treinar: a periodização tática, desenvolvida por Vítor Frade, que organiza todo o treino a partir do modelo de jogo da equipa. Muitos treinadores portugueses formaram-se com estas ideias.

Jogo posicional e pressão moderna

O Barcelona de Cruyff no início dos anos 90 e, mais tarde, o de Pep Guardiola, entre 2008 e 2012, deram forma ao jogo posicional: ocupar o campo de modo a ter sempre linhas de passe, largura máxima com os extremos, jogadores entre as linhas adversárias e superioridade numérica junto à bola. O 4-3-3 era o desenho de partida, mas na fase de construção a equipa transformava-se, com laterais por dentro, o médio defensivo entre os centrais ou interiores nos meio-espaços.

Ao mesmo tempo, a pressão logo a seguir à perda de bola, popularizada por treinadores como Jürgen Klopp, tornou-se comum. Hoje, a maioria das equipas profissionais combina as duas coisas: organização posicional com bola e reação rápida à perda.

4-3-3 de jogo posicional Meio-espaço Meio-espaço 1 4 5 3 2 6 10 8 11 7 9 Equipa A Passe
Esquema 6. 4-3-3 posicional: extremos (7 e 11) abertos junto à linha, interiores (8 e 10) nos meio-espaços, entre linhas, e laterais a dar apoio por fora. O médio defensivo (6) oferece sempre uma linha de passe à frente dos centrais. Abrir no quadro tático ↗

História da tática no futebol: o que um treinador de formação pode aprender

ÉpocaIdeia principalAplicação na formação
2-3-5Muitos jogadores no ataqueDar tempo de bola e de remate aos mais novos
WMEquilíbrio entre setoresEnsinar que defender e atacar estão ligados
4-2-4Defesa a quatro em linhaBase para a passagem ao futebol de 11
CatenaccioCobertura e contra-ataqueEnsinar a cobertura e a transição rápida
Futebol total / pressingPolivalência e bloco compactoRodar posições e pressionar em conjunto
Jogo posicionalOcupação racional do espaçoLargura, profundidade e apoios com bola

Na formação, o sistema é menos importante do que os princípios. Uma criança que joga em várias posições, que percebe quando dar largura e quando aproximar, e que reage logo à perda de bola estará preparada para qualquer sistema que encontre mais tarde. Os artigos sobre sistemas táticos no futebol de 7 e sobre largura e profundidade mostram como estes princípios se aplicam nos escalões de futebol reduzido.

Perguntas frequentes

Qual foi o primeiro sistema tático do futebol?

Depois de uma fase inicial com quase todos os jogadores a atacar, o primeiro sistema estável foi o 2-3-5, conhecido como pirâmide, usado a partir do fim do século XIX. Tinha dois defesas, três médios e cinco avançados.

O que é o sistema WM?

É um sistema 3-2-2-3 criado por Herbert Chapman no Arsenal, depois da alteração da lei do fora de jogo em 1925. O médio centro recuou para formar um terceiro defesa, e o desenho das linhas lembra as letras W e M.

O que é um líbero no futebol?

É um defesa sem adversário direto, posicionado atrás dos restantes defesas, que corrige erros e faz a cobertura. Foi uma peça central do catenaccio italiano e evoluiu para um defesa que também saía a jogar com bola.

O que é o futebol total?

É a forma de jogar do Ajax e da seleção holandesa dos anos 70, com Rinus Michels e Johan Cruyff. Os jogadores trocavam de posição, a defesa subia para encurtar o campo e a equipa pressionava em conjunto.

Que sistema usava o FC Porto de Mourinho?

Na época 2003/04, em que venceu a Liga dos Campeões, o FC Porto de José Mourinho jogou muitas vezes em 4-4-2 com o meio-campo em losango, com Deco no vértice mais avançado.