História da tática no futebol: do 2-3-5 ao jogo posicional
A história da tática no futebol é a história de um jogo que foi resolvendo problemas: como defender com menos jogadores à frente, como ocupar melhor o espaço, como recuperar a bola mais cedo. Do 2-3-5 dos primeiros campeonatos ao jogo posicional atual, cada sistema nasceu como resposta ao anterior e a mudanças nas leis do jogo. Para um treinador de formação, conhecer esta evolução ajuda a perceber porque ensinamos o que ensinamos, e o que cada época ainda tem para ensinar.
Organizas torneios? Cria o teu grátis no DorsalCUP.
Neste artigo
- O 2-3-5: a pirâmide dos primeiros tempos
- O WM: a resposta à nova lei do fora de jogo
- O 4-2-4: Hungria, Brasil e o Benfica de Guttmann
- Catenaccio e líbero: defender primeiro
- Futebol total e pressing: o espaço passa a ser o adversário
- Jogo posicional e pressão moderna
- História da tática no futebol: o que um treinador de formação pode aprender
O 2-3-5: a pirâmide dos primeiros tempos
No fim do século XIX, o futebol era um jogo de ataque. Depois de uma fase em que quase todos corriam atrás da bola, as equipas britânicas estabilizaram um desenho com dois defesas, três médios e cinco avançados, a chamada "pirâmide". Foi este o sistema que chegou a Portugal com os primeiros clubes, no início do século XX.
A lei do fora de jogo da época exigia três adversários entre o atacante e a linha de baliza, o que facilitava a vida aos dois defesas: bastava um deles subir para deixar os avançados adversários em fora de jogo. O médio centro era a figura principal, a defender e a lançar o ataque.
O WM: a resposta à nova lei do fora de jogo
Em 1925, a lei do fora de jogo passou a exigir apenas dois adversários em vez de três. Os avançados ganharam espaço e os golos dispararam. Herbert Chapman, no Arsenal, respondeu recuando o médio centro para o meio dos dois defesas, criando um terceiro central. Os dois médios interiores recuaram também. O desenho resultante, 3-2-2-3, ficou conhecido como WM pela forma das duas linhas de trás e da frente.
O WM introduziu a ideia de marcação mais definida: cada defesa tinha um adversário de referência. Dominou o futebol europeu até aos anos 50, incluindo em Portugal, e ainda hoje se reconhece nos sistemas com três centrais.
O 4-2-4: Hungria, Brasil e o Benfica de Guttmann
Nos anos 50, a Hungria mostrou que o avançado centro podia recuar e baralhar as marcações do WM. O Brasil campeão do mundo em 1958 organizou estas ideias num 4-2-4: quatro defesas em linha, dois médios e quatro avançados. Em 1962, com um dos extremos a recuar, o desenho aproximou-se do 4-3-3.
Em Portugal, o 4-2-4 está associado ao Benfica de Béla Guttmann, que venceu a Taça dos Campeões Europeus em 1961 e 1962. A seleção de Otto Glória, terceira classificada no Mundial de 1966 com Eusébio, também bebia destas ideias. A defesa a quatro tornou-se a base da maioria das equipas portuguesas desde então.
Catenaccio e líbero: defender primeiro
Em Itália, a resposta a equipas mais fortes foi reforçar a defesa. O catenaccio, aperfeiçoado por Nereo Rocco e por Helenio Herrera no Inter dos anos 60, juntava marcação individual apertada a um líbero: um defesa sem adversário direto, atrás dos marcadores, para corrigir qualquer falha. O ataque vivia de recuperações e de contra-ataques rápidos, muitas vezes lançados por um lateral que subia pelo corredor.
O líbero ficou no futebol durante décadas, também em Portugal, e evoluiu para um defesa que saía a jogar com bola, ao estilo de Beckenbauer. Hoje quase desapareceu, mas a ideia de ter sempre um jogador em cobertura continua a ser ensinada a qualquer defesa central.
Futebol total e pressing: o espaço passa a ser o adversário
No início dos anos 70, o Ajax de Rinus Michels e Johan Cruyff, campeão europeu em 1971, 1972 e 1973, e a seleção holandesa do Mundial de 1974 apresentaram o futebol total: jogadores que trocavam de posição, uma defesa que subia para encurtar o campo e uma pressão coletiva sobre a bola. A posição deixou de ser um lugar fixo e passou a ser uma função que qualquer jogador podia ocupar.
No fim dos anos 80, Arrigo Sacchi levou estas ideias a um 4-4-2 em linha muito compacto no Milan, campeão europeu em 1989 e 1990. A defesa à zona, com as linhas próximas e a pressão coordenada, tornou-se uma referência. Em Portugal, o FC Porto foi campeão europeu em 1987 com Artur Jorge e, em 2004, com José Mourinho, num 4-4-2 em losango com grande organização coletiva.
Há ainda um contributo português que não é um sistema, mas uma forma de treinar: a periodização tática, desenvolvida por Vítor Frade, que organiza todo o treino a partir do modelo de jogo da equipa. Muitos treinadores portugueses formaram-se com estas ideias.
Jogo posicional e pressão moderna
O Barcelona de Cruyff no início dos anos 90 e, mais tarde, o de Pep Guardiola, entre 2008 e 2012, deram forma ao jogo posicional: ocupar o campo de modo a ter sempre linhas de passe, largura máxima com os extremos, jogadores entre as linhas adversárias e superioridade numérica junto à bola. O 4-3-3 era o desenho de partida, mas na fase de construção a equipa transformava-se, com laterais por dentro, o médio defensivo entre os centrais ou interiores nos meio-espaços.
Ao mesmo tempo, a pressão logo a seguir à perda de bola, popularizada por treinadores como Jürgen Klopp, tornou-se comum. Hoje, a maioria das equipas profissionais combina as duas coisas: organização posicional com bola e reação rápida à perda.
História da tática no futebol: o que um treinador de formação pode aprender
| Época | Ideia principal | Aplicação na formação |
|---|---|---|
| 2-3-5 | Muitos jogadores no ataque | Dar tempo de bola e de remate aos mais novos |
| WM | Equilíbrio entre setores | Ensinar que defender e atacar estão ligados |
| 4-2-4 | Defesa a quatro em linha | Base para a passagem ao futebol de 11 |
| Catenaccio | Cobertura e contra-ataque | Ensinar a cobertura e a transição rápida |
| Futebol total / pressing | Polivalência e bloco compacto | Rodar posições e pressionar em conjunto |
| Jogo posicional | Ocupação racional do espaço | Largura, profundidade e apoios com bola |
Na formação, o sistema é menos importante do que os princípios. Uma criança que joga em várias posições, que percebe quando dar largura e quando aproximar, e que reage logo à perda de bola estará preparada para qualquer sistema que encontre mais tarde. Os artigos sobre sistemas táticos no futebol de 7 e sobre largura e profundidade mostram como estes princípios se aplicam nos escalões de futebol reduzido.
Perguntas frequentes
Qual foi o primeiro sistema tático do futebol?
Depois de uma fase inicial com quase todos os jogadores a atacar, o primeiro sistema estável foi o 2-3-5, conhecido como pirâmide, usado a partir do fim do século XIX. Tinha dois defesas, três médios e cinco avançados.
O que é o sistema WM?
É um sistema 3-2-2-3 criado por Herbert Chapman no Arsenal, depois da alteração da lei do fora de jogo em 1925. O médio centro recuou para formar um terceiro defesa, e o desenho das linhas lembra as letras W e M.
O que é um líbero no futebol?
É um defesa sem adversário direto, posicionado atrás dos restantes defesas, que corrige erros e faz a cobertura. Foi uma peça central do catenaccio italiano e evoluiu para um defesa que também saía a jogar com bola.
O que é o futebol total?
É a forma de jogar do Ajax e da seleção holandesa dos anos 70, com Rinus Michels e Johan Cruyff. Os jogadores trocavam de posição, a defesa subia para encurtar o campo e a equipa pressionava em conjunto.
Que sistema usava o FC Porto de Mourinho?
Na época 2003/04, em que venceu a Liga dos Campeões, o FC Porto de José Mourinho jogou muitas vezes em 4-4-2 com o meio-campo em losango, com Deco no vértice mais avançado.